Milei sob suspeita: PT aciona PGR para investigar dinheiro público argentino na campanha de Flávio
Federação Brasil da Esperança aponta ingerência estrangeira na eleição brasileira e quer saber quem pagou passagens, hospedagem, segurança e logística do presidente argentino em São Paulo
Javier Milei na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência; deputados argentinos repudiam Milei - Foto: Allison Sales/Folhapress
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PV e PCdoB, acionou a Procuradoria-Geral Eleitoral nesta segunda-feira (27) para pedir a abertura de uma investigação contra o presidente da Argentina, Javier Milei, por suposta ingerência externa no processo eleitoral brasileiro.
A notícia de fato também tem como alvos o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). A federação questiona quem custeou a viagem de Milei ao Brasil e se estruturas públicas brasileiras e argentinas foram utilizadas para promover a pré-candidatura presidencial de Flávio.
O presidente argentino desembarcou em São Paulo utilizando o avião presidencial e acompanhado de uma comitiva oficial. No sábado (25), após ser recebido por Tarcísio no Palácio dos Bandeirantes, Milei participou da convenção nacional do PL que lançou Flávio Bolsonaro à disputa pelo Palácio do Planalto em 2026.
Milei transforma viagem oficial em palanque para Flávio
A convenção foi realizada no Centro de Convenções do Pacaembu e teve um discurso de Milei marcado por ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao ministro Alexandre de Moraes e à esquerda latino-americana.
Segundo a representação da Federação Brasil da Esperança, o presidente argentino afirmou que apenas Flávio Bolsonaro seria capaz de “parar Lula”. Para os partidos, a declaração representou um pedido explícito de voto no pré-candidato do PL e, ao mesmo tempo, um apelo para que os eleitores não votem no atual presidente.
Milei também chamou Alexandre de Moraes de “lixo careca” e descreveu o Foro de São Paulo como uma “rede internacional” de disseminação do comunismo no continente, reproduzindo algumas das principais narrativas utilizadas pela militância bolsonarista.
Na avaliação da federação, as declarações não podem ser tratadas apenas como manifestações pessoais ou como exercício da liberdade de expressão de um chefe de Estado estrangeiro. Pelo contexto, pelo local e pelo conteúdo do discurso, Milei teria participado diretamente da dinâmica eleitoral brasileira.
PT denuncia “ingerência externa indevida”
A notícia de fato foi encaminhada ao procurador-geral Eleitoral, Paulo Gonet, e pede que o Ministério Público Eleitoral investigue a organização, o financiamento e o uso de recursos públicos durante a passagem de Milei pelo Brasil.
A Federação Brasil da Esperança afirma haver indícios de “ingerência externa indevida” no processo eleitoral brasileiro. O argumento é que a presença de um presidente estrangeiro em uma convenção partidária, com discurso de apoio a um pré-candidato e ataques ao seu principal adversário, pode afetar a normalidade e a legitimidade das eleições.
A representação também sustenta que o uso de estruturas estatais brasileiras ou estrangeiras para atender Milei teria potencial de romper a igualdade de oportunidades entre os candidatos que disputarão a Presidência em 2026.
Para a federação, a participação de um chefe de Estado em um ato de campanha oferece visibilidade, alcance institucional e recursos que nenhum ator político brasileiro poderia reproduzir nas mesmas condições.
Tarcísio recebeu Milei antes da convenção do PL
A inclusão de Tarcísio de Freitas entre os alvos da representação está relacionada à sequência de compromissos cumpridos por Milei em São Paulo.
Antes de participar da convenção do PL, o presidente argentino foi recebido oficialmente por Tarcísio no Palácio dos Bandeirantes. Na ocasião, o governador concedeu a Milei a Ordem do Ipiranga, maior honraria do estado de São Paulo.
Pouco depois da cerimônia oficial, Milei seguiu para o evento partidário que lançou Flávio Bolsonaro. Para a federação, essa sucessão de atos embaralha as fronteiras entre agenda diplomática, estrutura administrativa e campanha eleitoral.
O pedido de investigação questiona se o patrimônio ou a estrutura do governo paulista foram utilizados para “potencializar” a presença de Milei no país e, consequentemente, beneficiar uma candidatura específica.
Tarcísio é um dos principais aliados nacionais de Flávio Bolsonaro e participou diretamente do ato de lançamento do senador. Para os partidos que assinam a representação, essa proximidade reforça a necessidade de apurar a conexão entre a recepção oficial oferecida pelo governo paulista e a convenção realizada posteriormente.
Quem pagou a viagem de Milei?
Um dos principais pontos levantados pela Federação Brasil da Esperança é a falta de transparência sobre os custos da passagem de Milei pelo Brasil.
Até o momento, segundo os advogados da federação, não foram apresentadas informações públicas detalhadas sobre quem pagou as passagens, a hospedagem, os deslocamentos, a segurança, a logística e as demais despesas relacionadas à participação do presidente argentino no evento do PL.
A representação pede que a Procuradoria-Geral Eleitoral descubra se os gastos foram pagos pelo governo argentino, pelo Partido Liberal, pelo governo de São Paulo ou por fontes privadas. Cada uma dessas possibilidades, segundo os autores da ação, pode produzir consequências diferentes perante a legislação eleitoral brasileira.
A federação argumenta que a origem dos recursos não pode ser analisada separadamente da natureza eleitoral da visita. Milei chegou ao Brasil em aeronave oficial, foi recebido com honras por Tarcísio e, em seguida, discursou em uma convenção partidária em defesa de Flávio Bolsonaro.
Milei também é denunciado na Argentina
O uso de recursos públicos na viagem também levou Milei a ser denunciado em seu próprio país.
Os advogados argentinos José Magioncalda e Juan Martín Fazio apresentaram uma denúncia formal contra o presidente por malversação de fundos públicos e descumprimento dos deveres da função.
O fundamento da ação é o uso do avião presidencial, da comitiva oficial e de outros recursos do Estado argentino para participar de um ato político da oposição brasileira.
Para os denunciantes, o deslocamento de um chefe de Estado com dinheiro público para apoiar uma candidatura partidária em outro país representa um evidente desvio de finalidade.
“Os recursos estatais foram desviados para satisfazer os interesses de uma facção política, causando graves danos às relações diplomáticas bilaterais”, afirma a denúncia apresentada na Argentina.
A tese jurídica sustenta que o uso do aparato estatal argentino para participar de uma campanha política estrangeira pode configurar os crimes de malversação de fundos e descumprimento dos deveres de funcionário público.
Ataques desencadearam crise diplomática
Os ataques feitos por Milei em território brasileiro também provocaram uma reação institucional. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, afirmou que as declarações são incompatíveis com as relações entre Estados soberanos.
O Itamaraty convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos. A Casa Rosada, por sua vez, recusou qualquer possibilidade de pedido de desculpas pelas ofensas disparadas pelo presidente argentino durante a convenção bolsonarista.
Lula inicialmente evitou responder diretamente aos ataques e deixou a reação a cargo do Ministério das Relações Exteriores.
Ao chegar ao Palácio do Itamaraty nesta segunda-feira, entretanto, o presidente foi questionado por jornalistas sobre as declarações de Milei. Lula respondeu de maneira irônica:
“Quem é esse cara?”