Alvo da operação Sem Refino, que levou à busca e apreensão na casa do ex-governador Cláudio Castro (PL), Jonathas Assunção Salvador Nery Castro, principal assessor de Ciro Nogueira (PP-PI) na Casa Civil do governo Jair Bolsonaro (PL) foi arrolado como testemunha de defesa no processo em que o ex-presidente foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de Estado no Brasil após a derrota para Lula nas eleições de 2022.
Jonathas Assunção aparece no relatório de 517 páginas com as alegações finais do Procurador-Geral da República (PGR), Paulo Gonet, enviado a Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 14 de julho de 2025. Bolsonaro foi condenado dois meses depois, no dia 11 de setembro.
O ex-número 2 da Casa Civil aparece na lista de 15 nomes arrolados pela defesa ao lado de Rogério Marinho (PL-RN), senador e atual coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) e do próprio Ciro Nogueira que, segundo a PF, recebeu R 14,2 milhões do grupo Refit.
A transação ocorreu entre a empresa Athena, dona de imóveis suspeitos de serem operados pelo grupo Refit, e a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis. O senador alega que o pagamento e disse que a transação é referente à venda de um terreno para construção de uma distribuidora de combustíveis.
Alvo da PF
Testemunha de defesa de Bolsonaro no processo do golpe, Jonathas Assunção Salvador Nery, que foi o “02” de Nogueira na Casa Civil, entrou na mira da Operação Sem Refino, que mirou Cláudio Castro, por ter recebido R$ 1,3 milhão do grupo criminoso de Ricardo Magro, megasonegador que entrou na lista de foragidos da Interpol por determinação da Polícia Federal.
“Ainda, no período de 1º a 31 de março de 2025, o BANCO BTG PACTUAL S.A. comunicou movimentações financeiras atípicas envolvendo a empresa SARY CONSULTORIA E PARTICIPAÇÕES LTDA. (CNPJ n. 51.271.847/0001-41), aberta em 17/3/2025, tendo como beneficiário final exclusivo o nacional JONATHAS ASSUNÇÃO SALVADOR NERY DE CASTRO (CPF n.992.040.291-53). A empresa é classificada como microempresa, com capital social de R$ 1.000,00 e faturamento anual declarado de R$ 1.320.000,00, atuando formalmente no ramo de consultoria em gestão empresarial”, diz a PF no relatório enviado a Moraes para obter aval ao desencadeamento da operação.
Na investigação, a PF destaca que “Jhonatas Assunção ocupou o cargo de Secretário Executivo da Casa Civil da Presidência da República, função na qual atuava como principal auxiliar do então Ministro da Casa Civil, o atual Senador CIRO NOGUEIRA, a quem estava diretamente subordinado”.
Novo escândalo de Flávio Bolsonaro
As investigações em torno de Ciro Nogueira e Cláudio Castro no caso Refit, do megasonegador Ricardo Magro, colocou um novo escândalo na antessala do gabinete de Flávio Bolsonaro, que deve ser tragado à medida que a PF alinha o inquérito com o escândalo do Caso Master.
Após a ação da PF contra Castro, o corpo jurídico de Flávio Bolsonaro alertou o pré-candidato sobre o novo escândalo que deve bater à sua porta.
Como a Fórum revelou, no relatório que embasou o aval do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para a operação contra Cláudio Castro, a Polícia Federal (PF) destaca “a leniência e a criação de um ambiente propício para a propagação da atividade espúria desenvolvida pela organização criminosa capitaneada por RICARDO MAGRO no estado do Rio de Janeiro, credor do GRUPO REFIT no montante de R$ 9.448.431.196,74, retratam o amálgama do crime organizado com agentes públicos influentes na política fluminense, a começar pelo então chefe do Poder Executivo”.
“Nesse cenário, o ambiente propício para as atividades espúrias do conglomerado foi construído com a anuência do Estado, notadamente do então chefe do Poder Executivo, o então governador CLÁUDIO CASTRO. Sob sua administração, a REFIT encontrou um ambiente apelidado por um artigo publicado pela revista Piauí como o Corredor do Rio“, diz a PF.
O termo, cunhado pela reportagem publicada pela Piauí na edição de março deste ano, faz referência a um atalho político e financeiro que conectava Castro ao governo Jair Bolsonaro e a interlocutores no Congresso Nacional, liderados por Flávio Bolsonaro, para se criar “um arranjo tributário que, na prática, abriria um ‘corredor do Rio’ para empresas ligadas ao grupo de Magro”.
Fuzis ao Comando Vermelho
Na edição especial de dezembro de 2025, a Fórum antecipou a interligação entre as investigações das operações Poço de Lobato, contra Ricardo Magro e o grupo Refit, e Compliance Zero, que levou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, à prisão.
À época, ao comentar a investigação sobre o grupo Refit, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad — atual pré-candidato ao governo do Estado — afirmou que as investigações conduzidas pela PF miravam “o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas”.
“Armas estão chegando ao Brasil em contêineres; vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robinson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres, demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental inibir o crime nos territórios, impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil”, afirmou Haddad.
Desencadeada em agosto de 2025, a Operação Carbono Oculto mobilizou um verdadeiro exército formado por agentes das polícias Federal, Militar e Civil, além de promotores do Gaeco do Ministério Público de São Paulo e fiscais da Receita Federal e estadual na Faria Lima.
A ação atingiu o coração financeiro do crime organizado, cumprindo mandados de busca e apreensão em 42 alvos, entre empresas, bancos e fundos de investimento. A estrutura financeira era usada, segundo a PF, pelos “empresários” Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, que faziam a ponte entre o PCC e o Grupo Refit, usando o setor de combustíveis para lavar dinheiro do tráfico.
Segundo a PF, o grupo atuava desde 2019, quando Bolsonaro chegou à Presidência, e é suspeito de ter movimentado mais de R$ 23 bilhões por meio de uma rede com centenas de empresas.
Somente a fintech BK Bank, fundada em 2019, teria sido usada para movimentar cerca de R$ 17,7 bilhões de forma suspeita.
Conforme a Fórum antecipou, o Grupo Refit usava como laranja Cristiano Moreira Pinto Beraldo, comentarista da Jovem Pan e figura do MBL.
De acordo com a PF, o esquema incluía tráfico de armas pesadas dos EUA, como AK-47 e AR-10, enviadas em contêineres.
As armas eram entregues a “empresários”, como Josias João do Nascimento, agente aposentado da PF, classificado como “Senhor das Armas”, ligado ao brasileiro Frederik Barbieri, condenado por tráfico internacional de armas nos EUA.
Outro receptor seria o CAC Eduardo Bazzana, preso em maio, em cuja casa foram apreendidas mais de 200 armas e 40 mil munições.
O empresário mantinha interlocução com Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, o “Zeus”, do Comando Vermelho, que atuava na Muzema, área antes controlada por milicianos ligados ao clã Bolsonaro.
A Muzema foi onde Fabrício Queiroz se abrigou após o escândalo das rachadinhas. Segundo o MP-RJ, parte dos recursos teria financiado construções irregulares em Rio das Pedras.