AH, A DEMOCRACIA… E O BRILHO IRRESISTÍVEL DO TAPETÃO - A VAGA É MINHA
E O TITINHO VAI OU VAI
Internet / Montagem
Ah, a democracia. Esse espetáculo magnífico onde a vontade do povo é soberana… até que alguém descobre que, às vezes, o voto é apenas um detalhe burocrático diante de uma boa tese jurídica.
É comovente assistir ao empenho quase missionário de certos personagens em corrigir pequenas “falhas” do processo eleitoral — como, por exemplo, candidatas que precisavam, veja só, existir de fato.
Mas convenhamos: convencer eleitor dá trabalho. Exige proposta, rua, desgaste, aperto de mão e, pior ainda, paciência. Muito mais eficiente é convencer um juiz com uma bela pilha de documentos e a nobre defesa da moralidade pública.
É a consagração daquela máxima silenciosa da política moderna: se não foi no voto, talvez vá no tapetão.
E aí surge ela, a joia rara do enredo: a candidata fantasma. Aquela entidade quase folclórica que teve zero (6,7) votos, não movimentou campanha, não gastou um centavo e, com um toque de poesia institucional, ainda aparece demonstrando simpatia pelo adversário.
Um detalhe mínimo, claro. Quase irrelevante. Apenas suficiente para desmontar uma chapa inteira e reacender sonhos adormecidos de suplência.
Enquanto o eleito comemora, tira foto e agradece à família, há sempre aquele olhar jurídico treinado — quase um faro investigativo de alta precisão — vasculhando o CNPJ, o extrato bancário e o silêncio eleitoral de certas candidaturas.
Não é ambição. Que injustiça pensar isso.
É puro zelo pela lisura do processo.
Ele não quer a cadeira, o gabinete, a verba ou os quatro anos de mandato. Ele quer apenas justiça — ainda que ela venha, por mera coincidência, acompanhada de gabinete climatizado e assessoria parlamentar.
É fascinante como a contagem de votos pode se tornar um instrumento tão ultrapassado diante de uma boa irregularidade formal.
Quem precisa de mil votos quando se tem a comprovação de que determinadas candidaturas femininas — com seus respeitáveis seis ou sete votos — serviram mais ao sistema do que propriamente ao eleitorado?
O novo — ou velho — eleito, aquele que o povo não escolheu diretamente, mas o regimento acolheu com carinho, sobe a rampa com o queixo erguido. Afinal, vencer na urna é para amadores. Os profissionais sabem que a verdadeira arte está na anulação da chapa inteira.
Não há suor de caminhada. Não há sola de sapato gasta em bairro periférico. O brilho agora vem do verniz do tribunal. A vitória não está na praça pública, mas na sentença bem fundamentada.
É a sofisticação da política sem povo.
Parabéns ao novo ocupante da vaga. Que seu mandato — se vier a tempo — seja tão autêntico quanto as candidaturas que ajudaram, ainda que involuntariamente, a pavimentar seu caminho.
Porque, no fim, a democracia brasileira às vezes parece isso: um jogo em que o apito final não acontece na urna, mas no último recurso protocolado.
Voto popular virou quase uma fase preliminar.
O verdadeiro checkmate é jurídico.
E o eleitor?
Ah, o eleitor…
Essa figura quase decorativa do processo democrático. Aquele ser folclórico que acorda cedo no domingo, enfrenta fila, digita seus números com convicção e volta para casa acreditando, ingenuamente, que participou de alguma decisão relevante. Que ternura.
Na sofisticada engenharia do tapetão, o eleitor ocupa exatamente o espaço que lhe reservaram: o de espectador da própria irrelevância.
Seu voto não é um contrato. É, no máximo, uma sugestão sujeita à revisão técnica posterior.
E assim seguimos.
Entre recursos, embargos e candidaturas que talvez só existissem no papel, resta a pergunta que realmente interessa nos bastidores:
Titinho — Tibúrcio Militão — vai ou não vai?
Porque no Brasil, às vezes, a urna apenas apresenta o elenco. O resultado mesmo estreia depois, no tribunal.
Por: Jornalista Marcos Souza