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(O MELHOR DELES) - Dia da Mulher: Flávio Bolsonaro destila machismo em vídeo para “ajudar quem cuida da gente”

Flávio Bolsonaro fala em "ajudar" quem "cuida da gente" em vídeo sobre Dia Internacional da Mulher. "Um exemplo clássico de como o machismo político se atualiza em discursos aparentemente gentis", analisa especialista.

Por Por: Plinio Teodoro-
6 Min
(O MELHOR DELES) - Dia da Mulher: Flávio Bolsonaro destila machismo em vídeo para “ajudar quem cuida da gente”
- Flávio Bolsonaro em "homenagem" ao Dia da Mulher (Reprodução / Rede X)

Ungido por Jair Bolsonaro (PL) como pré-candidato do clã à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) revelou, em “homenagem” ao Dia da Mulher, que o discurso machista e retrógrado é uma espécie de herança de família entre os quatro filhos do ex-presidente – que já afirmou ter dado uma “fraquejada” ao conceber a única filha mulher, Laura, de seu terceiro relacionamento, com Michelle Bolsonaro (PL).

“O vídeo publicado por Flávio Bolsonaro no Dia Internacional da Mulher é um exemplo clássico de como o machismo político se atualiza em discursos aparentemente gentis. A fala parece elogiosa, mas carrega uma visão profundamente limitada sobre o que é ser mulher no Brasil”, diz Thaís Cremasco, advogada, cofundadora do Coletivo Mulheres pela Justiça e colunista da Fórum.

Junto ao vídeo com discurso machista e retrógrado nas redes sociais, Flávio afirma que “precisamos cuidar de quem sempre cuidou da gente” e ” ajudar todas as mulheres a trilharem o caminho da prosperidade”. “E isso só será possível zerando as filas das creches no nosso Brasil”.

“Ao afirmar que devemos ajudar mulheres a “trilhar o caminho da prosperidade ao lado de quem amam”, ele reforça um imaginário antigo e perigoso: o de que a felicidade feminina depende de estar acompanhada, de preferência por um homem, dentro de um modelo específico de família. Essa narrativa ignora milhões de mulheres que vivem outras formas de vida, outras configurações familiares ou simplesmente que não precisam de um parceiro para existir com dignidade e prosperidade”, analisa a advogada.

Seguindo seu discurso, Flávio busca confrontar Lula, que fez um pronunciamento em rede de rádio e TV neste sábado (7), dizendo que “não adianta chegar no 8 de março e fazer discurso bonito de igualdade” e oferece como solução construir creches – uma política pública que está na esfera municipal.

“São 2,3 milhões de crianças de 0 a 3 anos negligenciadas pelo atual governo. São mães que querem trabalhar, querem prosperar, querem dar uma vida melhor para sua família, mas encontram dificuldades e portas fechadas. Quando falta creche, quem paga o preço quase sempre é a mulher. É ela quem abandona o emprego, interrompe os estudos e adia sonhos. O Brasil precisa cuidar de quem cuidou e cuida da gente”, diz o filho “01” do ex-presidente, que foi condenado pela Justiça por atacar a deputada Maria do Rosário (PT-RS), dizendo “não estuprava você porque você não merece”.

Para Thais Cremasco, “não é coincidência que, no mesmo discurso, as mulheres apareçam associadas ao cuidado e à maternidade, como se a principal política pública para elas fosse a creche”.

“Creches são fundamentais, claro. Mas reduzir o debate sobre o futuro das mulheres a isso revela exatamente a mentalidade que há décadas tenta limitar o lugar feminino à esfera do cuidado. Além disso, esse tipo de discurso reproduz uma lógica profundamente desigual: a de que o cuidado com os filhos é responsabilidade das mulheres. Fala-se em creche como solução para que as mães consigam trabalhar, mas quase nunca se menciona a corresponsabilidade dos homens na criação dos filhos. O cuidado continua sendo tratado como tarefa feminina, como se criar crianças fosse um destino natural das mulheres e não uma responsabilidade compartilhada pela sociedade e pelos pais. O problema não é falar de creches. O problema é falar de mulheres apenas como mães ou como companheiras de alguém”, diz a advogada.

Dia Internacional da Mulher

Thais lembra que o Dia Internacional da Mulher nasceu de uma luta por direitos, trabalho digno, autonomia econômica e participação política. E não para reforçar um modelo de família que historicamente serviu para controlar o corpo, o trabalho e a liberdade das mulheres.

“Quando políticos como Flávio Bolsonaro falam em “família brasileira”, sabemos muito bem a que família eles se referem. É uma ideia estreita, conservadora e excludente, que tenta invisibilizar mães solo, mulheres independentes, casais homoafetivos, famílias plurais e todas as formas legítimas de existência que não cabem nesse molde moralista. Mais grave ainda é que esses discursos ignoram a realidade brutal que as mulheres enfrentam no país. Enquanto se fala de prosperidade e de um ideal de família, mulheres continuam sendo assassinadas no Brasil em um ritmo alarmante. Hoje, uma mulher é morta aproximadamente a cada seis horas. Isso significa que milhares de brasileiras vivem sob risco permanente de violência, muitas vezes dentro da própria casa, justamente no espaço que esses discursos romantizam como símbolo de proteção”, ressalta.

Por fim, Flávio Bolsonaro retoma a visão retrógrada desejando “do fundo do coração que toda mulher brasileira tenha cada vez mais oportunidades de construir um futuro melhor para ela e para sua família”. “E que um dia possa trilhar o caminho da prosperidade ao lado de quem ama”.

“Mulheres não precisam da autorização de ninguém para prosperar. Não precisam de tutela política, nem de discursos paternalistas sobre como devem viver ou amar. O que as mulheres exigem é igualdade real, autonomia, segurança e liberdade para construir suas vidas da forma que quiserem”, analisa a advogada.

“O Dia Internacional da Mulher não é sobre encaixar mulheres em um modelo de família. É sobre desmontar as estruturas que tentaram nos manter dentro dele por séculos. E é justamente por isso que discursos como esse precisam ser denunciados pelo que realmente são: mais uma tentativa de revestir o velho machismo com palavras bonitas”, conclui Thais Cremasco.


FONTE: https://revistaforum.com.br
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