New York Times condena ataque dos EUA à Venezuela: “ilegal e imprudente”

Maior jornal americano condena bombardeio a Caracas e captura de Maduro e sua esposa: “o que separa a guerra do assassinato é a lei”

Por Por: Julinho Bittencourt-
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- Bombardeio ao Fuerte Tiuna, complexo militar da Venezuela/Foto: Luis JAIMES / AFP

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela na madrugada deste sábado (03), determinada pelo presidente Donald Trump, foi classificada pelo New York Times como uma escalada perigosa e sem base legal, tanto no direito americano quanto no internacional. A operação, que envolveu o envio de forças navais e aéreas ao Caribe, que resultou também na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, provocou reações e questionamentos dentro e fora dos Estados Unidos.

Segundo o jornal, o uso de meios militares de grande porte ocorreu sem autorização do Congresso, requisito previsto na Constituição dos EUA para ações desse tipo. O editorial aponta que o governo mobilizou porta-aviões, navios de guerra, aeronaves e milhares de soldados antes de submeter a decisão ao debate legislativo.

Críticas a Maduro

Embora reconheça as denúncias de repressão política e violações de direitos humanos atribuídas ao governo Maduro, o New York Times afirma que a experiência histórica americana demonstra que intervenções militares para derrubar regimes tendem a agravar crises internas e gerar instabilidade prolongada. Casos como Iraque, Afeganistão e Líbia são lembrados como exemplos de ações que produziram efeitos adversos duradouros.

A justificativa apresentada pela Casa Branca, baseada no combate ao “narcoterrorismo”, também é colocada em dúvida. De acordo com o jornal, a Venezuela não ocupa posição central na produção das drogas associadas à crise de overdoses nos Estados Unidos, e grande parte do tráfico ligado ao país tem como destino o mercado europeu.

O editorial ainda destaca contradições na política adotada por Trump, ao mencionar que, enquanto ordenava ataques a embarcações venezuelanas sob suspeita de tráfico, o presidente concedeu perdão a Juan Orlando Hernández, ex-presidente de Honduras condenado por envolvimento com o narcotráfico. Para o jornal, a comparação expõe o caráter seletivo das decisões.

Doutrina Monroe

Outro ponto de crítica envolve a Estratégia de Segurança Nacional recentemente divulgada pelo governo americano, que reafirma a Doutrina Monroe e defende maior presença militar dos EUA na América Latina. O documento menciona o uso de força letal e a redistribuição de tropas, o que, na avaliação do New York Times, sinaliza uma retomada de posturas intervencionistas com potenciais impactos negativos sobre a estabilidade regional.

No campo jurídico, o jornal sustenta que ataques a embarcações com base apenas em suspeitas podem violar princípios do direito internacional humanitário e da legislação americana. Um dos episódios citados envolve um segundo ataque contra um barco já danificado, que resultou na morte de dois tripulantes. O editorial cita o ex-advogado do Exército dos EUA David French: “O que separa a guerra do assassinato é a lei”.

Risco de violência prolongada

Além das questões legais, o New York Times avalia que a ofensiva não atende aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. A Venezuela, segundo o jornal, apresenta um risco elevado de fragmentação política e violência prolongada, mesmo com a retirada de Maduro do poder, já que setores militares que sustentaram o regime permanecem influentes.

O editorial também alerta para possíveis consequências indiretas da operação, como o agravamento da crise migratória, impactos nos mercados globais de energia e alimentos e maior instabilidade na América Latina. A líder opositora María Corina Machado é citada como figura com reconhecimento internacional, mas sem garantias de aceitação pelas Forças Armadas venezuelanas.

Ao concluir, o New York Times afirma compreender a angústia de venezuelanos que veem na intervenção externa uma possível saída para a crise, mas ressalta que não existem soluções simples. Para o jornal, a estratégia adotada pelo governo Trump tende a aprofundar o sofrimento da população venezuelana e a causar danos duradouros à credibilidade internacional dos Estados Unidos.

FONTE: https://revistaforum.com.br