Para pôr um ponto final: Não se faz jornalismo com “me falaram” e “ouvi dizer”
Este método, se somado a outros procedimentos rígidos e com devido cuidado, até pode ser usado. No entanto, da forma como foi feito por Malu Gaspar, não
- Foto: Henrique Rodrigues/Revista Fórum
Não há aqui nenhuma intenção de parecer professoral ou de dar aula sobre o que é jornalismo. O que existe é o propósito de se delimitar o que pode e o que não pode se fazer no exercício de uma determinada profissão, que neste caso é a de jornalista. Antes de começar, cabe registrar que vem se avolumando o número de jornalistas, juristas e leitores que passaram a defender de alguma forma, até com argumentação erudita, a conduta da colega Malu Gaspar, do diário carioca O Globo e da GloboNews, no caso envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e as reuniões que ele teve com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. É igualmente indispensável dizer que o bloco de críticos da atuação da referida jornalista também cresce a cada dia.
Malu Gaspar imputou diretamente um fato, que tem aspecto indubitavelmente criminoso, a um ministro da Suprema Corte. Até aqui, não há problema algum, já que como jornalista ela tem por ofício apurar informações, cruzar versões, juntar o máximo possível de elementos e tornar pública uma história que é notícia pelo seu caráter de interesse público, sobretudo por envolver uma autoridade graúda da República. Só que não foi isso que aconteceu.
Ao ouvir “seis fontes” [poderiam ser até 12], que teoricamente ouviram outras fontes [e isso pode ser verdade], dizer que supostamente Moraes foi tomar pé com a maior autoridade financeira do país de uma questão envolvendo a fusão de um banco público com um banco privado suspeito, que viria depois a ser protagonista de um esquema bilionário de fraudes, as condutas que Malu poderia ter tomado a partir deste ponto eram várias.
Podemos começar sugerindo o mais óbvio: a jornalista precisaria buscar algum elemento indiciário mínimo, factual, que por si só aportasse um crédito a mais à história. Outra possibilidade era a de afirmar que “alguns rumores” estavam sacudindo Brasília, sem imputar esse fato grave direta e nominalmente a um ministro do Supremo, pois, afinal, não havia uma prova sequer daquilo. Muitas vezes o repórter coloca uma versão, de maneira abrandada, para informar a sociedade sobre coisas que vêm ocorrendo nos bastidores, mas com o cuidado de não afirmar nada categoricamente, pois sem uma prova cabal a coisa pode descambar para o fofoquismo, sem resultar em jornalismo.
E é justamente nesse ponto que ocorre uma tomada de decisão errônea, que para muita gente é, na verdade, proposital. Malu “crava”, como se diz no jargão jornalístico, ou seja, assevera, garante como certa, a informação de que Moraes foi tratar do caso Master com Galípolo. A acusação não reside numa interpretação boba da realidade, pois há algum tempo se tinha conhecimento de que o escritório de advocacia da família do ministro, dirigido por sua esposa, Viviane Barci de Moraes, mantinha um contrato polpudo com a instituição financeira de Daniel Vorcaro.
Fazendo um parênteses, deve-se lembrar que o único ponto jornalisticamente relevante desta história é o tal contrato entre o escritório da família Moraes e o Banco Master, supostamente de 36 meses a um valor de R$ 3,6 milhões mensais, o que resultaria em R$ 129 milhões ao término de sua vigência. O valor do acordo profissional celebrado é, de fato, acima daqueles praticados no segmento, e poderia ter sido proposto por Vorcaro com a intenção, futuramente, de tentar se fazer valer de alguma forma de atuação por influência da referida banca de advogados, em que pese o fato de isso ser uma mera suposição, que poderia ser perfeitamente rechaçada pelos profissionais do direito envolvidos, por inúmeras razões, a principal delas o cometimento de um ato ilícito que não estariam dispostos a levar a cabo.
Moraes e Galípolo, por óbvio, negaram tal acusação. Entretanto, não se trata de uma mera negativa típica de quem se defende. O ministro tinha razões de sobra para procurar o presidente do Banco Central, pois àquela época tinha acabado de se tornar o primeiro brasileiro da História a ser alvo da Lei Magnitsky, aplicada pelo governo de Donald Trump a ele por seu papel como relator da ação penal da tentativa de golpe de Estado que culminou com a condenação e prisão de Bolsonaro. As datas das duas reuniões coincidem com as aplicações da mencionada lei, respectivamente, a Moraes e depois a Viviane Barci. Os dois tiveram decretadas a tão temida “morte financeira” e precisavam de suporte no BC para saber como agir e viver a partir de tal cenário delicado.
De volta ao caso de Malu Gaspar, o que temos visto nos últimos dias é um time de colegas alinhadíssimos à “denúncia”, e que o tempo todo apelam ao chamado argumento de autoridade. Seria Malu uma profissional “séria”, “respeitável”, “merecedora e vencedora de vários prêmios”, enfim, uma jornalista de quem devemos aceitar qualquer informação sem questioná-la. Não vou entrar no mérito do que penso sobre Malu Gaspar, e aliás nem acho que ela seja uma figura a ser duramente criticada no meio jornalístico, ainda que jamais esqueça de sua tietagem com Sergio Moro e as batidas de bumbo diárias durante a Lava Jato, operação na qual a mentira virou elemento central e que foi posteriormente desmascarada até mesmo em âmbito judicial. Mas o x da questão aqui é a decisão, neste caso específico, de optar pelo fofoquismo. Sim, isso é uma fofoca e não pode ser tomada simplesmente como verdade. Por precaução, digo aqui que sou totalmente contrário a qualquer forma de censura, pressão, medida judicial ou de cerceamento a Malu. Ela é jornalista, e como eu, tem o direito de realizar seu trabalho.
Dentro ainda dessa mesma toada, vi uma célebre figura da internet hoje, jornalista também, gravando uma defesa rasgada da conduta de Malu no caso Moraes. Com imagem em alta definição, fundo bem decorado que reforça a intelectualidade e som impecável, o douto comentarista, com tom de voz austero e agradável, além da eloquência que o reafirma como homem de credibilidade inabalável, lista uma série de coisas. Fala da função social do jornalista, que se um jornalista desagrada todos os setores é porque ele está fazendo um trabalho brilhante, que a Constituição de 1988 assegura o sigilo da fonte, que muitas das mais importantes descobertas do jornalismo foram por meio desse tipo de fonte, que o jornalismo sério de décadas para cá está nesse seleto grupo “que não tem lado”, enfim, um compêndio de bonitezas. Ele só não diz que, em qualquer manual, teórico ou pratico, de primeiro semestre de curso de jornalismo, em qualquer lugar do mundo, há um veto expresso a se reportar acusações por meio de fonte anônima que não tenha provas ou indícios. Isso tem nome: denuncismo. Alguém acusa, não apresenta nada e sequer põe a cara. Não, não é assim que se utiliza uma fonte anônima e é preciso reforçar que há métodos para fazer uso dela.
Por fim, o que temos percebido é que, por mero corporativismo, a imprensa empresarial segue protegendo por meio de malabarismos constrangedores o que Malu Gaspar fez, mesmo sabendo nos intestinos das redações que tal prática é execrável e inadmissível quando se busca um bom jornalismo. Agora, é preciso esperar que a acusação se comprove, ou então teremos mais uma cena semelhante àquelas do tenebroso período da Lava Jato.